25/07/2011

Perda

Como é duro perder um ente querido. Perdi meu paizinho há um ano e quatro meses. É estranho como parece que faz menos tempo. Tenho uma saudade imensa dele. Foi como se perdesse um pedaço do meu corpo, do meu coração, da minha mente. Éramos muito afins. Ele era especial. Não é por que era meu pai não, ele realmente era especial. Desde pequena sempre gostei de ficar em sua companhia mesmo que fosse pra ficarmos em silêncio. Apreciávamos a companhia um do outro. Quando cheguei aos 20 anos tive um desilusão amorosa que quase acabou comigo. Na época eu fumava cigarros e simplesmente parei de me alimentar normalmente. Fumava bastante e tomava um toddy pra acompanhar. Na mesma época resolvi para de comer carne depois que li o livro "Fisiologia da alma" de Ramatis. Leitura transcedental. Resolvi fazer esse sacrifício já que não conseguia deixar de ter defeitos como a ira, o ciúme, etc. Resultado, dos 57k que eu tinha na época pulei pros 49k. Meu cabelo começou a cair, minha pele ficou horrível. O corpo começou a aparentar o estado da minha alma. Também foi nessa época comecei a ler os livros que tinha em casa. Depois que cansei de assistir corujão descobri o prazer da leitura. O meu primeiro livro foi Santa Joana e Pigmaleão de Bernard Shaw. Era escrito como se fosse uma peça de teatro e eu adorei. O segundo foi "Há dois mil anos" de Emmanuel, foi muito difícil, pois o vocabulário era obsoleto, ou seja, ultrapassado e algumas palavras não existiam mais no dicionário. Meu pai me sujeriu que pulasse algumas palavras e me ligasse no texto. Aos poucos e com a ajuda do meu pai eu fui aprendendo os significados e me aprofundando cada vez mais. O resultado foi que lendo sobre a história de sofrimento daqueles personagens eu me esquecia um pouco do meu próprio sofrimento. Ou mesmo percebia que era pequeno se comparado ao daquelas pessoas. Lia sem parar. Lia livros com 535 páginas em quatro dias. Quando eram fininhos lia em uma madrugada. Troquei o dia pela noite e nos finais de semana ficava com papai lendo pra ele e comentando o assunto. Tinha pesadelos quando dormia e sempre que isso acontecia eu chamava o papai e ele vinha meio sonado na maior boa vontade ficar um pouco comigo. Eu tinha medo de dormir sozinha. Ele foi meu melhor amigo, o melhor companheiro que alguém pudesse ter. Com o tempo fui me sentindo melhor, voltei a trabalhar e fui me reerguendo. Deixei de sair com amigas pra balada pra ficar com ele. A vida de baladas perdeu totalmente o colorido. Amadureci tanto que já não conseguia mais conviver com minhas antigas amizades. Só meu pai me entendia e só eu o compreendia. Sempre que me sentia angustiada recorria a ele. Ele na sua sabedoria sempre me dava conselhos que me acalmavam a alma. Comecei a namorar meu atual esposo e estamos juntos há 13 anos e com uma filhinha de 4 anos. Como em todo casamento já passamos por altos e baixos, mais baixos do que altos e nos separamos por 3 meses. Tentei esquecê-lo, mas como ele não desistia acabei cedendo. Antes perguntei a opinião do meu pai. Ele me disse que me apoiaria independentemente da minha escolha. Ele era apenas o máximo! Há mais ou menos 4 anos ele começou a ter sintomas de Alzymer e começou sua derrocada. Começou a ver pessoas que não existiam, começou a ficar extremamente agitado. Quando começou a tomar a medicação ficou completamente dopado. Não havia o meio termo ou ele gritava o dia todo ou ficava dopado no sofá ou na cama. Uma tristeza sem fim. Começou a se levantar de madrugada e acabou batendo a cabeça no batente abrindo assim um corte fundo. Tomou pontos e ficamos muito impressionados. Minha mãe alugou uma cama destas de hospital pra que ele não caísse mais. Com o tempo todos nos revesávamos para fazer a barba, cortar suas unhas, trocar a fralda e depois minha mãe passou a dar comida na boca dele. Ano passado ele definhou rapidamente, teve que colocar sonda e em uma semana finalmente descansou. Foi um choque. Nós não esperávamos. Todos acreditávamos na melhora dele. Um dia antes dele falecer eu botei minha filhinha pra dormir e fui lá cuidar dele. Limpei os ouvidos, o nariz, passei lenço umedecido no rosto todo, pinguei soro fisiológico nos olhos e umedeci sua boquinha que sem as dentaduras ficavam sempre abertas. Fiquei 40 minutos, entretida cuidando dele. No dia seguinte ele foi tendo paradas respiratórias, as extremidades foram ficando frias e de repente parou de respirar. Eu deitei na cama com ele pra me despedir.Fiquei abraçada nele, pois sabia que em breve não mais o veria. Bateu um remorso terrível das vezes que não tive a paciência necessária. Essa doença é terrível por que o corpo sobrevive e a alma parece que já se foi. Se ele tivesse morrido com plenas faculdades mentais e físicas quando era ele o chefe da família acho que a família não suportaria. Ninguém aguentaria. Deus foi sábio nos seus desígnios como sempre. No começo do ano estava totalmente desorientada, chorava no meu horário de almoço todos os dias. Nessas horas é melhor desabafar com a família exorcisar os sentimentos. Só assim a gente supera. Hoje percebo que sempre vou sentir sua falta. Sempre. Saudades eternas Paizinho querido. Te amo pra sempre! Te amos demais! Um dia vamos nos encontrar e se Deus quiser nunca mais nos separaremos.

Um comentário:

  1. Má, apesar de já conhecer um pouco dessa história, fiquei muito sentida com esse texto... bjs...se cuida.

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